Decidir em harmonia com Deus, 2ª parte: Assumindo a responsabilidade pelas nossas decisões

Por Peter Amsterdam

Abril 1, 2014

Já lhe aconteceu de estar diante de decisões importantes para as quais precisava de orientações explícitas, mas sentir que Deus estava em “modo silencioso”, justo quando você mais gostaria que Ele lhe desse uma resposta precisa para ajudá-lo em uma decisão importante? Eu, já. E esses momentos são de verdadeiras dificuldades espirituais. Queria que o Senhor indicasse com clareza o caminho a seguir, mas, em Sua sabedoria, escolheu não me dar uma resposta direta. Por isso, precisei analisar as opções, buscar conselho divino, examinar as portas de oportunidade abertas à minha frente, orar muito e, principalmente, entregar-Lhe meus caminhos. Tive de confiar que Ele direcionaria meus passos da maneira que Lhe parecesse melhor.

Nessas horas em que as revelações diretas vêm bem a calhar, o que eu mais queria era que o Senhor me dissesse qual das muitas opções era a melhor e me poupasse da agonia de ter de avaliar cada uma delas, seus prós e contras, e assumir a responsabilidade da decisão tomada, pois não sabemos por certo como as coisas vão acontecer. Muitas vezes, o Senhor confirma Sua vontade com uma palavra direta de profecia como um sinal da Sua graça e favor, algo que tem sido tremendamente encorajador e uma grande fonte de poder; em outros momentos, espera que nos valhamos das outras maneiras para encontrarmos Sua vontade (ver Decidir em harmonia com Deus, 1ª parte). Analisar a situação, pesar as várias opções e tomar uma decisão final costuma nos proporcionar experiências de aprendizado e crescimento.

Esse processo provavelmente inclui muitos conflitos mentais, emocionais e espirituais, como aconteceu com Jacó, quando teve de passar a noite lutando contra um anjo.[1] Mas se tivermos feito o que estava ao nosso alcance para orar e seguir Deus da melhor forma, podemos confiar que quaisquer que sejam os resultados das nossas decisões vão nos beneficiar.[2]

Muitas vezes, quando busco o Senhor, Sua vontade e Sua orientação com respeito a decisões importantes, Ele não me diz exatamente que escolhas devo fazer e que resultados elas produzirão. Costuma me mostrar a direção geral em que devo seguir, ou os primeiros passos que devo dar, e me diz para voltar a Ele em oração conforme as coisas forem acontecendo. Em situações assim, é comum que a decisão final só possa ser feita depois de certas coisas se encaixarem. Ao longo do processo de tomada de decisão, enquanto oro por sabedoria e orientação, cabe a mim comparar prós e contras, avaliar as portas abertas e fechadas, buscar o conselho dos outros e, trabalhando com o Senhor, fazer tudo que preciso para chegar à decisão certa. Apesar de Deus nem sempre me dizer especificamente o que devo fazer, posso sempre contar com Ele, com Sua orientação e Suas instruções, enquanto avalio as opções e possibilidades, até me sentir em paz porque as decisões estarão alinhadas com Sua vontade.

Um aspecto importante do plano de Deus para a humanidade é o livre arbítrio que Ele nos concedeu. Os cristãos que querem glorificar Deus em suas vidas devem aprender a tomar decisões com base em Seus princípios e escolher as melhores opções dentre as muitas que surgem diariamente. Considerar as alternativas, comparar vantagens e desvantagens, usar a sabedoria que o Senhor nos dá para sondar as situações usando a Palavra de Deus é parte de amar o Senhor com nossa mente, nosso coração e nossa alma, em obediência ao Seu primeiro e maior mandamento.[3] Mesmo quando não recebemos uma revelação direta de Deus para nos guiar em nossas decisões, ainda podemos nos encorajar com Sua promessa de nos orientar, se confiarmos a Ele nosso caminho e buscarmos Sua vontade pelos métodos que estão ao nosso dispor. Na verdade, mesmo quando Ele nos dá uma revelação, é sábio pôr isso à prova e discernir se é a boa e perfeita vontade de Deus.[4] Para isso, podemos fazer algumas perguntas, tais como: Está em harmonia com Sua Palavra? Ele falou por meio de passagens específicas das Escrituras? Procurei a opinião de conselheiros que conhecem Deus? (Consulte a 1ª parte para conhecer mais maneiras de descobrir a vontade de Deus.)

Parte do estresse e dos conflitos que encontramos quando estamos tomando decisões vem do medo do fracasso, do receio de não realizar a vontade de Deus, do temor de tomar uma decisão que produza impactos negativos em nossas vidas e nas vidas de outros, os quais não conseguimos prever. Quando se trata dessas decisões importantes capazes de definir nosso futuro, ou pelo menos imediatamente, aprendemos pela experiência que uma escolha insensata pode resultar na necessidade de voltarmos atrás ou, quando isso não é possível, viver com as consequências do erro. Às vezes, apesar das nossas melhores intenções e desejos, tomamos decisões que levam a desdobramentos não previstos, mas com quais passamos a ter de conviver.

Como Deus nos criou agentes dotados de livre arbítrio e capazes de escolher com independência, somos pessoalmente responsáveis por nossas decisões. É uma das razões para sermos cuidadosos e usarmos sabedoria na hora de decidir. Assumir a responsabilidade pelos resultados de nossas escolhas é uma importante parte do processo. Somos livres para chegar às nossas próprias decisões, mas também responsáveis pelas consequências. Se forem negativas, não devemos tentar culpar os outros ou Deus. Somos responsáveis. Também temos de confiar que Ele prometeu que tudo contribuiria para o bem dos que O amam, independentemente dos desdobramentos iniciais que certas situações produzem. Ele pode usar inclusive nossos erros e as ocasiões em que parecemos ter interpretado mal nossas coordenadas quando tomamos as decisões e, então, redirecionarmos nosso curso, para que a experiência produza benefícios em nossas vidas e nos leve ao destino que Deus planejou para nós.

Curvas e obstáculos inesperados são partes da estrada da vida, por mais sábias que sejam nossas decisões. Em muitas passagens bíblicas vemos expectativas e planos que foram contrariados. Ao partir para a Terra Prometida, Moisés provavelmente não previu que vagaria pelo deserto por 40 anos, mas nem por isso duvidou da sabedoria de sua decisão nem perdeu de vista seu destino final, quando as coisas não saíram como ele imaginava. Continuou avançando apesar dos obstáculos.

Mesmo quando tomamos as decisões certas, nada garante que não haverá percalços no caminho. Tropeços e dificuldades são inerentes à experiência humana e muitas vezes servem para fortalecer nossa fé. Deus, nosso Pai celestial, sabe que aprender a tomar decisões, assumir responsabilidades pelos resultados e todas as lições que aprendemos no curso de nossas vidas são parte de nosso processo de crescimento e desenvolvimento espiritual.

Acho que a maioria já se viu diante de decisões críticas, quando o Senhor se manifestou por meio de profecia, por uma visão, em um sonho ou de algum outro modo mostrou, de forma específica e inequívoca a escolha certa a ser feita. Também conhecemos as situações em que coube a nós o trabalho árduo de tomar boas decisões usando para isso os outros meios para encontrar Sua vontade. Ele prometeu que quando O buscarmos de todo o coração, O encontraremos.[5] Se Lhe confiarmos nossos caminhos e O reconhecermos, Ele guiará nossos passos e nossa linhas cairão em lugares agradáveis.[6] Podemos confiar que Ele nunca nos deixará nem nos abandonará, mesmo nos momentos quando parece silencioso ou não nos dá as orientações claras que buscamos para uma decisão.

Rick Warren expressa essa questão da seguinte forma:

Depois de Jesus, é provável que Davi tenha tido a amizade mais estreita com Deus do que qualquer outra pessoa. Deus fez questão dizer que Davi era um homem segundo o Seu coração. Contudo, o grande salmista várias vezes se queixou do que entendia ser a ausência de Deus:

“Por que Te conservas longe, ó Senhor? Por que Te escondes nos tempos de angústia? (Salmo 10:1) “Por que me desamparaste? Por que estás tão longe de me salvar, tão longe das palavras do meu gemido?” (Salmo 22:1)

Certamente Deus não abandonara Davi e jamais abandonará você. Ele prometeu: “Não te deixarei, nem te desampararei” (Deuteronômio 31:6). Mas Deus não prometeu “você sempre sentirá minha presença.” Na verdade, admite que, às vezes, se esconde de nós. Há situações em que Ele parece não estar presente em nossas vidas.

Esperarei no Senhor, que esconde o Seu rosto da casa de Jacó, e a Ele aguardarei. (Isaías 8:17)

Mas se me adianto, ali não está; se torno para trás, não O percebo. Se opera à esquerda, não O vejo; encobre-se à direita, e não O diviso. Mas Ele conhece o meu caminho; se Ele me provasse, eu sairia como o ouro. … Cumprirá o que está ordenado a meu respeito. (Jó 23:8–10,14)[7]

Às vezes, uma das razões de Deus parecer silencioso nesses momentos cruciais é que deixou para nós a decisão e quer que sejamos sábios ao fazer nossas escolhas, em harmonia com Sua vontade, e que assumamos a responsabilidade tanto pelas nossas ações quando pelos resultados que delas advierem. David Berg escreveu sobre as diferentes opções com as quais os cristãos podem se deparar no contexto da vontade de Deus e como Ele tem prazer em deixar que nós escolhamos:

Talvez os surpreenda saber que Deus gosta que vocês, Seus filhos, tomem suas próprias decisões no contexto de Sua vontade. Sei que vocês se deleitam no Senhor e querem realizar Seu desejo. Mas quando fazemos isso, Ele se deleita em conceder os desejos de nossos corações, porque é Ele que os coloca lá quando O agradamos (Salmo 37:4).

O Senhor gosta inclusive de nos conceder nossa escolha pessoal dentre várias boas alternativas, todas em conformidade com a Sua vontade, se for o que quisermos. É como deixamos nossos filhos escolherem um brinquedo, um passeio ou um prazer qualquer, desde que seja seguro e bom para eles. Esta é uma coisa que as pessoas parecem não entender com respeito a Deus: Ele gosta muito de nos deixar escolher, como fazemos com nossos próprios filhos, desde que não seja ruim para nós ou para os outros.[8]

Deus criou os seres humanos com a capacidade de tomar decisões conscientemente, o que inclui escolher dentre várias opções e dar os passos necessários para a realização dessas escolhas.

Segundo os teólogos Lewis e Demarest, o livre arbítrio significa tanto poder decidir dentre várias alternativas quanto a capacidade de buscar a realização daquela que foi escolhida. Em um primeiro momento, a liberdade humana envolve uma capacidade de escolher objetivos. Os que dentre nós optam pelos valores e propósitos revelados por Deus, o fazem por entenderem serem estes os melhores. Pode haver várias alternativas que não violam as orientações morais reveladas, o que nos oferece várias escolhas que são morais. [...] A vontade humana também inclui a capacidade por autodeterminação. Contudo, não há liberdade se, tendo feito uma escolha, não pudermos avançar para essa meta para fazermos o que escolhemos fazer. O livre arbítrio existe quando podemos escolher dentre alternativas e alcançar aquela que escolhemos.[9]

Adão e Eva, os primeiros seres humanos, se depararam com decisões logo no início, ainda no Jardim do Éden. Deus os criou seres racionais à Sua imagem e imediatamente lhes possibilitou tomarem decisões. Adão foi incumbido de dar nome a todos os seres vivos e a Bíblia não dá nenhuma indicação que Deus lhe tenha dito como deveria fazer isso nem que nomes escolher para os animais. Designou-lhe a tarefa porque sabia que as qualidades racionais e intelectuais com as quais lhe havia dotado permitiriam que ele tomasse decisões sábias. Obviamente, da mesma forma, a autodeterminação lhe dava a liberdade de fazer as escolhas erradas, como vemos pela decisão de Adão e Eva de desobedecerem o mandamento de Deus. Ao escolherem comer o fruto proibido, contrariaram a vontade expressa de Deus, causaram a queda do homem e todos os resultados negativos a ela associados.

Isso abriu caminho para o pecado que, por sua vez, criou uma separação entre o Criador e Sua criação. Felizmente, Jesus pagou o preço pelos nossos pecados, tornou possível que nos reconciliássemos com Deus e estabelecêssemos um relacionamento com Ele. Além de nos reconciliarmos, ao escolhermos amá-lO e aceitarmos o sacrifício de Jesus, esse sacrifício abriu o caminho para a intimidade com Deus. A metáfora do casamento usada para descrever o relacionamento espiritual íntimo entre Jesus e Sua igreja representa a união profunda de coração, mente e espírito que Jesus busca com cada um de nós. O amor intenso e íntimo por Deus, o fortalecimento da fé pelo estudo da Sua Palavra e a condução da vida pelos seus preceitos, torna essa relação uma jornada repleta de alternativas, muitas das quais representam possibilidades boas e espiritualmente corretas.

Parte dessa jornada para a intimidade com Ele e para uma vida produtiva à Sua presença consiste de aprender a tomar decisões em harmonia com Sua vontade, as quais fortalecerão nosso relacionamento com o Senhor, aumentarão nossa fé e nos tornarão mais frutíferos, pois teremos maior confiança no Seu desvelo e provisão. Conforme Lhe entregarmos nossos caminhos, buscarmos agradá-lO e fizermos o que é aprazível aos Seus olhos, podemos estar confiantes do nosso relacionamento com Ele, seguros de que Ele estará conosco nas decisões, pequenas e grandes, que encontrarmos em nossas vidas.[10]

Ora, o Deus da paz … vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a Sua vontade, operando em vós o que perante Ele é agradável por meio de Jesus Cristo, ao qual seja glória para todo o sempre.[11]


Nota

A menos que indicado ao contrário, todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 1990, por Editora Vida.


[1] Gênesis 32:24–30.

[2] Romanos 8:28.

[3] Mateus 22:37–38. Respondeu-lhe Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento.”

[4] Romanos 12:2.

[5] Jeremias 29:13. Buscar-Me-eis, e Me achareis, quando Me buscardes de todo o vosso coração.

[6] Provérbios 3:6. Reconhece-O em todos os teus caminhos, e Ele endireitará as tuas veredas.

Salmo 16:6. As linhas me caíram em lugares deliciosos; certamente me coube uma formosa herança.

[7] The Purpose Driven Life (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2002), 108–109.

[8] David Berg, “Escolha” 1973.

[9] Gordon R. Lewis e Bruce A. Demarest, Integrative Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1994), 156–157.

[10] 1 João 3:21–22. Amados, se o coração não nos condena, temos confiança para com Deus, e qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus mandamentos, e fazemos o que lhe é agradável.

[11] Hebreus 13:20–21.

Tradução Mário Santana. Revisão H.R.Flandoli.

 

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