O Jogo da Compaixão

Por Maria Fontaine

Outubro 28, 2017

[The Compassion Game]

É natural tirar conclusões sobre as pessoas. Infelizmente, muitas vezes são conclusões negativas. Eu, pessoalmente, tenho visto como é fácil fazer isso, e oro constantemente que o Senhor me detenha logo no primeiro pensamento crítico ou farisaico a respeito de outros. Todos nós sabemos, com base na Bíblia, que agir assim é errado e não reflete a natureza de Jesus. Quando nos permitimos influenciar por esse tipo de pensamentos, nossas percepções geralmente são incorretas. E mesmo que, tecnicamente sejam corretas, são superficiais ou egoístas, ou não levam em consideração todos os fatores por trás das ações ou reações de alguém.

Eu acho que essa inclinação de tirar conclusões negativas ou presumir o negativo indica a importância de nos esforçarmos continuamente para nos revestirmos da mente de Cristo. Para muitos de nós exige um esforço consciente evitar essa tendência negativa e automática. Frequentemente achamos que conhecemos a situação e podemos avaliá-la corretamente. Mesmo que venhamos a descobrir repetidas vezes que estávamos errados e a situação não era o que pensávamos, ainda é possível cair na armadilha de achar que sabemos o que está acontecendo. A verdade, porém, é que vemos apenas parte da realidade.

Logicamente não temos condições de conhecer os pensamentos ou sentimentos de alguém, nem os detalhes particulares de sua vida. Baseamo-nos apenas no âmbito da informação a que temos acesso.

Quando desconhecemos a motivação da pessoa e discordamos de suas ações ou perspectivas, ou antipatizamos com elas, é fácil concluir que a motivação provavelmente era errada. E essa perspectiva gera conclusões errôneas. Contudo, se olharmos para Jesus e O deixarmos orientar nossos pensamentos, o Seu amor nos dará uma visão baseada na perspectiva espiritual. Ele pode nos mostrar como Ele vê a situação.

Sabemos que é errado criticar nossos irmãos e outros. Sabemos que desagrada a Deus e é contrário à Sua Palavra. No entanto, como disse o apóstolo Paulo: “Pois não faço o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.”[1]

Superar nossa natureza pecaminosa, geralmente contrária à verdade da Palavra de Deus, é um processo. Muitas vezes leva bastante tempo para nos limparmos das perspectivas enraizadas. Além da tendência natural e inata, o fato de absorvermos tanto do mundo também influencia nossas atitudes, mas devemos alinhá-las à mente e ao coração de Cristo. Isso faz parte de “trazer cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo”.[2]

Imagino que todos podemos nos lembrar de ocasiões quando nossas palavras foram julgadas de maneira injusta ou errada, ou nossas ações mal interpretadas e nossos esforços sinceros rejeitados devido a suspeitas ou atitudes preconcebidas por parte da outra pessoa. Isso dói e desanima. Ou talvez nos lembremos de ter feito ou dito algo em uma estranha ou inconveniente tentativa de sermos compreendidos, amados ou reconhecidos, no entanto a outra pessoa nos julgou e acusou de tentarmos deliberadamente a magoarmos ou a outrem. Por isso, se conhecemos esse sentimento, talvez devamos considerar as outras pessoas e entendermos que elas podem estar se sentindo da mesma forma, e, nesse caso, usarmos a oportunidade para aliviarmos o seu sofrimento.

Quer a pessoa que estamos criticando esteja certa, quer errada, nós estamos errados por nos deixarmos influenciar por um espírito crítico. Eu sou culpada de tirar conclusões precipitadas — e muitas vezes erradas — a respeito de outros.

Por isso comecei a lutar para transformar esse hábito negativo em um hábito positivo de perguntar ao Senhor o que Ele pensa da situação. Ele tem sido fiel em me avisar quando reverto ao meu modo natural de pensar. E me lembra para jogar um jogo, por assim dizer, de pensar em todos os cenários possíveis, ou razões, por que o que me parece negativo na verdade pode ser um clamor por ajuda da parte da outra pessoa. Com a orientação do Senhor, eu talvez consiga suprir essa necessidade de alguma forma, e muitas vezes principalmente por meio da oração, o que não diminui de modo algum o valor dessa ajuda.  

Imagine uma pobre mãe impaciente gritando com os filhos. É fácil rotulá-la de “inapta”. Mas, e se na verdade, ela for uma mãe muito dedicada e amorosa que simplesmente está com uma dor de cabeça lancinante? Seus três filhos estão brigando, e ela perde a paciência — não por ser uma pessoa má ou cruel, mas porque passou a noite em claro cuidando do bebê, e não sabe como reagir a não ser gritar para fazer as crianças prestarem atenção.

A Bíblia nos admoesta a pensar nas coisas boas, no correto, em tudo o que for amável e de boa fama, e ter misericórdia e compaixão, em vez de presumirmos o pior.[3]

Percebi que, quanto mais faço esse pequeno exercício de deixar o Senhor guiar meus pensamentos para o bem, mais me convenço que é uma medida necessária em qualquer situação para conseguirmos criar o hábito.

Outra maneira de cultivar o hábito de ver o positivo é implementar o que alguém sabiamente disse: “Aprende-se melhor quando se ensina”.

Como pais e avós, podemos usar nossas experiências com filhos e netos como oportunidades de ensinamento. Você talvez ouça as crianças criticando alguém: “Aquele menino nunca brinca com a gente. Ele parece mau. Aposto que é um bully e faz parte de uma gangue”.

Você poderia responder sugerindo que, talvez, o menino esteja com algum problema que ele nem percebe; talvez tenha problemas em casa, ou seus pais tenham se divorciado e seja difícil para ele lidar com a situação. Talvez ele nem seja uma pessoa má, mas esteja triste e se sinta só.

Ou pode estar preocupado com algum membro da família doente. Talvez queira fazer amizade, mas viva preocupado, tanto que nem consegue sorrir, que dirá se divertir. Ou podem haver muitas outras questões, temores, ou problemas que o preocupam e oprimem, e no fundo ele seja uma boa pessoa. Em vez de oferecer possíveis “respostas” imediatamente, você poderia incluir as crianças no “jogo”, perguntando-lhes se conseguem pensar no que poderia estar causando esse tipo de atitude.

Quando está com crianças menores, talvez digam algo tipo: “Olha o rosto daquela menina, cheio de manchas e espinhas. Ela é feia”.

Você poderia dizer: “O que acham de tentarmos pensar sobre qual seria a nossa reação se tivéssemos esse problema. Sei que eu não gosto que as pessoas reparem em algo constrangedor a meu respeito, e tenho certeza que outros também não gostam disso”. (Poderia usar suas experiências pessoais também, e dizer: “Tive esse mesmo problema quando era jovem, e ficava muito triste, porque achava que ninguém ia querer ser meu amigo”.)

Depois, se necessário, poderia oferecer possíveis razões para o problema da menina, explicar que talvez ela tenha algum problema há bastante tempo e seja difícil lidar com isso. Ou poderia ajudar as crianças a se identificarem com a menina, explicando que ela provavelmente fica constrangida e tímida com desconhecidos, e nem quer que vejam seu rosto. Além do mais, talvez ela não possa fazer muito para mudar a situação. “Imagine como você ficaria triste se estivesse na mesma situação!”

Poderia lhes perguntar: “O que acham que podem fazer para ajudá-la? Será que ajudaria não ficarmos encarando ou zombando dela? Podemos também pedir a Jesus para encorajá-la mostrando que a ama, porque Ele a ama. Talvez, sempre que o Senhor nos lembrar dessa menina, devamos orar para que Ele a encoraje e cure o seu problema de pele”.

Ensinar as crianças a jogar o que eu denomino “O Jogo da Compaixão”, não só abre a porta para o Senhor ajudá-las a ter ternura pelos outros, mas também lhes ensina humildade e compreensão, além de a usar oração para fazer a diferença na vida de outros. Essas qualidades são necessárias conforme aprendem a seguir Jesus. Se cultivarem o hábito do Jogo da Compaixão, ficarão mais felizes, serão mais amorosas, entenderão as pessoas e andarão em oração.

Quem sabe não ensinem isso aos amigos e, no futuro, a seus próprios filhos? Quem pode dizer aonde isso chegará? Pode ter um impacto positivo para o resto de suas vidas e da vida de outros. Talvez alguns de vocês já façam isso e tenham visto que as crianças gostam, porque é um jogo de adivinhação, de procurar respostas positivas. E podem pedir a Jesus para lhes mostrar outras coisas sobre a pessoa para quem estão orando.

Essa atitude pode ajudar as crianças a amadurecerem, ensinando-lhes a estarem mais conscientes dos outros e verem soluções em vez de problemas. Pode ajudá-las a se preparar para lidar com a vida, e a tratarem outros como gostariam de ser tratadas, e até terem uma perspectiva positiva de suas próprias lutas e falhas. Podem aprender a buscar Jesus e Sua ajuda pelos outros, e Suas respostas para suas próprias vidas.

Ele pode lhes mostrar como jogar o Jogo da Compaixão hoje. Comece sozinho, mas, como acontece com tudo relacionado ao nosso Salvador, as bênçãos e benefícios aumentam conforme compartilhamos o que aprendemos, quer crianças, quer adultos. Deus o abençoe!


[1] Romanos 7:15, 19.

[2] 2 Coríntios 10:5.

[3] Filipenses 4:8; Romanos 9:15.

 

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