Jesus — Sua Vida e Mensagem: Jesus e as Crianças

Por Peter Amsterdam

Julho 28, 2020

[Jesus—His Life and Message: Jesus and the Children]

Cada um dos três Evangelhos sinópticos — Mateus, Marcos e Lucas — fala da interação de Jesus com as crianças que Lhe foram trazidas para receber Sua bênção. O relato no Evangelho segundo Lucas estará no centro deste estudo, que incluirá também alguns pontos dos demais.

O povo também estava trazendo criancinhas para que Jesus tocasse nelas. Ao verem isso, os discípulos repreendiam aqueles que as tinham trazido.[1]

Este Evangelho usa o termo criancinhas, enquanto nos escritos por Mateus e por Marcos encontramos o termo crianças. De qualquer forma, o fato de terem sido “trazidas” indica que eram muito jovens, assim como sugere a afirmação no Evangelho de Marcos de que Ele tomando-as nos braços... as abençoou.[2] O propósito dos pais ao trazerem os filhos para Jesus é claro no Evangelho segundo Mateus:

Trouxeram-lhe então algumas crianças, para que lhes impusesse as mãos, e orasse.[3]

A repreensão dos discípulos provavelmente não era destinada às crianças, mas aos adultos que as traziam para serem abençoadas. Não está claro por que repreenderam aquelas pessoas que traziam os filhos para Jesus, já que o texto não comenta o motivo; no entanto, veremos que a resposta de Jesus mostra que a atitude e as ações dos discípulos não estavam alinhadas com a visão do Mestre de como as crianças deveriam ser tratadas. É provável que considerassem desnecessário que Jesus gastasse tempo com os pequenos.

Na época do Império Romano, era frequente a morte na infância devido às doenças e à elevada taxa de mortalidade geral. Às vezes, as crianças indesejadas eram deixadas à beira da estrada para morrerem ao relento, uma prática não tão chocante ou incomum na época como seria agora. Às vezes, os bebês abandonados eram acolhidos e criados como filhos adotivos. Muitos outros eram recolhidos e escravizados.

Nos tempos antigos, havia uma variedade de razões pelas quais os bebês eram abandonados aos elementos da natureza, dentre elas a pobreza dos pais, que buscavam limitar assim o tamanho da família, e devido a quaisquer deficiências visíveis ou características físicas incomuns do recém-nascido. Com certeza, havia aqueles que criavam os filhos que apresentavam deformidades congênitas. Numerosos esqueletos adultos desenterrados do mundo antigo indicam a existência de deficiências que teriam sido perceptíveis no nascimento, o que mostra que algumas crianças nascidas com deformidades físicas atingiram a idade adulta.

O povo judeu, sob o Império Romano, não praticava o infanticídio nem abandonava seus filhos à própria sorte. Escritores judeus como Josephus e Philo de Alexandria condenavam essas práticas como atos bárbaros. Embora o Novo Testamento não aborde diretamente o abandono das crianças, os escritos da igreja primitiva condenaram práticas greco-romanas que contrariavam as crenças cristãs, dentre elas batalhas entre gladiadores, aborto, infanticídio e o abandono das crianças às intempéries.

Destoando da repreensão que os discípulos aplicaram aos que queriam que Jesus impusesse as mãos em seus filhos e os abençoasse, Jesus determinou que fosse permitido às crianças irem até Ele.

Jesus chamou a si as crianças e disse: Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.[4]

No Evangelho segundo Marcos, lemos que Jesus se indignou com o que considerou um tratamento injusto.[5] Para Ele, cada pessoa tinha importância e não queria que ninguém fosse impedido de ter acesso a Ele, incluindo as crianças.

Jesus então ensinou sobre o discipulado e que o reino de Deus é composto de pessoas como aquelas crianças. Ao dizer isso, mostrou que as crianças têm valor e são dignas de entrar no reino de Deus. Ao aceitar as crianças, Jesus comunicou que elas são capazes de confiar e crer nEle.

O uso da expressão o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas oferece um segundo ensinamento. As crianças a que Jesus Se refere representam algo essencial para os membros do Reino de Deus — ou seja, os crentes devem ter confiança infantil e dependência de Deus. Como as crianças dependem de seus pais, os filhos de Deus devem depender dEle.

Jesus não disse que o reino pertence às crianças, como parece dizer a redação desse versículo em algumas versões da Bíblia, mas aos que são semelhantes a elas. Ele não estava afirmando que as crianças têm bondade inata, mas outra qualidade que é essencial para entrar no reino de Deus. Um autor afirma:

Infelizmente nem Jesus nem os autores dos Evangelhos elucidaram exatamente qual é essa qualidade. Algumas sugestões são (1) a humildade das crianças, visto que não têm nada do que se gabar e não podem fazer nenhuma reivindicação diante de Deus, (2) uma fé simples e isenta de dúvidas, e (3) a falta de apego aos bens materiais. À luz da passagem anterior e da relação de Mateus entre a humildade e as crianças, a primeira sugestão parece ser a melhor.[6]

Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele.[7]

Receber o reino de Deus é se submeter à autoridade do governo de Deus. Os adultos possuem poder e autoridade próprios, os quais podem colidir com a autoridade de Deus. Por causa disso, aquele que deseja entrar no reino deve recebê-lo como uma criança faz, sem auto importância. O escritor Robert Stein afirma:

A interpretação mais provável é que as pessoas recebam o reino de Deus como as crianças recebem coisas, ou seja, sem questionamentos, sem presunção de auto importância, em simples obediência, na humildade e na fé/confiança. Devemos receber o reino como as crianças recebem um presente.[8]

O relato no Evangelho segundo Lucas termina aqui, mas os de autoria de Mateus e Marcos contam que Jesus impôs as mãos nas crianças. Em Marcos diz: E tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoou.[9] Ao tomar as crianças em Seus braços e abençoá-las, Jesus demonstrou que as aceitava e também as intenções daqueles que Lhes trouxeram seus filhos. Ele não Se limitou a impor as mãos sobre as crianças, mas as tomou nos braços e as abençoou. Dessa forma, deixou claro e tornou público que as crianças são aceitas e preciosas no Reino de Deus.


Nota

A menos que indicado o contrário, todas as referências às Escrituras foram extraídas da “Bíblia Sagrada” — Tradução de João Ferreira de Almeida — Edição Contemporânea, Copyright © 2001, por Editora Vida.


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[1] Lucas 18:15 (NVI).

[2] Marcos 10:16.

[3] Mateus 19:13.

[4] Lucas 18:16 NVI.

[5] Marcos 10:14.

[6] Stein, The New American Commentary: Luke, 453.

[7] Lucas 18:17.

[8] Stein, Mark, 464.

[9] Marcos 10:16. Ver também 19:15.

 

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